segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

APRESENTAÇÃO NOVA SÉRIE - TANTAS COISAS...

 Tantas coisas é uma série baseada na história de cinco mulheres diferentes que procuram encontrar seu lugar na sociedade, nesta trajetória elas enfrentam os diversos tipos de situações  conflituosas. A história de vida destas mulheres não é diferente da história de muitas outras mulheres que enfrentam a luta diária para sobreviver com dignidade.

No primeiro episódio, estaremos  conhecendo Ângela, uma estudante cheia de conflitos e traumas que tenta vencer todas as dificuldades que a afasta dos estudos e da realização dos sonhos futuros.


CAPITULO I


A ÚLTIMA DA FILA





Abri os olhos lentamente com a claridade do dia que vinha chegando era impossível continuar dormindo, pois a luz entrava pelos buracos do telhado, mas também, não seria possível continuar dormindo, pois nós dormíamos no chão e quando uma acordava não era mais possível que as outras duas continuassem dormindo. Como se fosse coordenado, as três levantavam e cada uma já ia procurando dobrar os lençóis, remover a cama improvisada do meio do cômodo, era 1995 e tudo parecia tão estranho para Ângela, a irmã caçula começava a se arrumar para ir para a escola e a mãe ia fazer uma faxina em um condomínio muito longe, as duas saíram e Ângela tentou arrumar as poucas coisas da melhor forma possível, só ia para a escola de tarde, mas sua lição exemplarmente já estava pronta.

As vezes, Ângela se perguntava pra que se prestava a tanto sacrifício para continuar estudando se  o desenho que a vida apresentava para ela, parecia perfeitamente linear. Ângela não tinha uma moradia decente ou confortável, nem sempre tinha alimento  em sua casa, sua mãe era a única que trabalhava e o que ganhava era muito pouco para dizerem que se sustentava. Ela queria muito  um dia ter um emprego regular que garantisse todo o mês um salário certo, que pudesse arrumar a sua casa, comprar roupas legais para a mãe, para irmã e para ela. Quantas vezes Ângela suportara os colegas dando risadas de seu sapato furado, ou do jeans " Pescando siri"? A sensação que Ângela tinha era que ela era sempre a última da fila e que nada de bom acontecia com ela. Ser pobre era muito difícil, Ângela não gostava daquela realidade e não queria prosseguir daquela forma. A maioria das meninas da vizinhança que tinham a sua idade sempre tinham o mesmo destino, começava a entrar na adolescência, conheciam algum carinha e engravidavam, depois o cara sumia e elas ficavam solitárias com uma criança pequena e sem nenhuma perspectiva de vida, tudo ficava ainda pior porque nesta caso não teriam que suportar só a pobreza, mas a difamação das pessoas, todo mundo apontava o dedo, chamava as meninas de perdidas e já começavam a fazer previsões sobre o futuro daquela criança que ainda nem tinha nascido.

Ângela não queria aquilo para ela, no fundo achava que não havia muita chance disso acontecer porque ela se achava feia, não tinha dinheiro para se arrumar, ficar bonita e chamar a atenção dos meninos, ninguém sabia, o que de fato ela enfrentava para poder ir para a escola todos os dias, pouquíssimos professores conseguiam compreender que as vezes uma atividade sem fazer não significava negligência, mas carência, falta de grana para comprar uma folha de papel pautado, eles não sabia que em muitas situações  ela precisava comprar 0,50 centavos de pão e vinham dez pães e a família dela ia dividir aqueles dez pães pelo tempo  que fosse necessário, como se fosse um banquete. Ouvia legião Urbana cantando  O Teatro dos Vampiros, Renato Russo já havia morrido mas  apesar de sua morte  suas palavras poetizadas na letra da canção falava tanto sobre o coração de Ângela que só queria uma chance de poder escolher um futuro. Cursando  sétima série ginasial, ela procurava não sonhar com coisas impossíveis, queria apenas conseguir  chegar até o segundo grau e conseguir terminar, achar um emprego de qualquer coisa que te trouxesse pelo menos alimento todos os dias a sua mesa e mesmo sabendo que este desejo aos olhos de muita gente parecia pouco demais, para ela aquilo era como arrastar uma montanha.



REFERÊNCIAS

Ilustração: Maiara de Deus

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