28 de janeiro de 2023
Por Maiara de Deus
Eu acho que eu sempre fui mais pensamentos do que atitudes, eu sempre refleti muito e observei muito as coisas, a vida, as pessoas...
Tão pouco foram os dias de felicidade na minha vida que inconscientemente eu os repetia na minha mente a fim de reviver coisas que me pareciam muito distantes, inusitadas e impossíveis de voltar a acontecer.
Sempre fui uma ótima ouvinte e uma excelente contadora de historias e por isso compartilho cada um pouco dos DIAS FELIZES vividos por algumas amigas que fui conhecendo ao longo da vida.
A TORRE
Quando eu era criança, até uns quatro anos, tudo para mim era mágico, eu não enxergava as coisas como as outras pessoas, tudo para mim tinha uma história, um porque atrás de tudo aquilo, existia uma atmosfera mística em tudo, nas pessoas, no amanhecer e no anoitecer tudo era lindo. Hoje um ano passa muito rápido, mas lá atrás, na minha infância parecia que para chegar o Natal era uma eternidade, mas quando chegava eu sentia meu coração cheio de uma alegria indescritível, todos os elementos ao meu redor pareciam participar de uma magia serena que enfeitava a tudo.
Hoje, lamentavelmente mal conseguimos olhar para o céu e ver as estrelas, a lua ou as nuvens ganhando textura de carneirinhos, muita gente construiu suas torres de Babel e foram tirando a visão de toda está riqueza que nos cerca.
Quando eu era criança, do fundo da minha casa dava para ver a torre de transmissão de uma emissora de TV, quando o Natal ia se aproximando enfeitavam está torre com luzes coloridas e quando chegava a noite eu ia olhar a torre tão longe e tão bela mesclando luzes verde,vermelha,amarela, azul e branca. Na noite escura o céu servia como um fundo neutro para aquele espetáculo belo.
Minha família era muito pobre eu não tinha muitas coisas que as outras crianças tinham mas eu era tão inocente naquela época, eu era criança de verdade sem nenhum tipo de malícia, aos meu olhos não havia riqueza mais maravilhosa que observar aquele espetáculo que não custava ingresso mas era tão mágico como ver minha avó por na mesa a toalha com desenhos de Natal, sentir o perfume das trombetas que abriram todas as noites na frente da minha casa e exalavam um perfume inesquecível como se fosse os anjos de Deus tocando uma sinfonia aromática.
Muitos anos se passaram, eu comecei a estudar o Tarot na adolescência e uma das cartas deste baralho se chama "A Torre", não é uma carta boa mas me fez lembrar com nostalgia do tempo que eu não sabia como pode haver coisas negativas nesta vida e que a torre para mim era apenas um símbolo de alegria que enfeitavam as noites de Natal com brilho e cores alegres.
24 de março de 2023
Capítulo II
O COQUEIRO
Durante muitos anos da minha vida, eu vivi em uma casa de apenas dois cômodos o que chamam de quarto e sala, nesta casa viviam quatro pessoas meu pai, minha mãe, eu e minha irmã.
Se me perguntassem naquela época se era ruim eu não saberia dizer porque eu nunca tinha conhecido outra forma de vida, eu nunca tinha tido outra habitação, não sabia o que era privacidade.
A casa ficava em uma avenida que era construída entre duas ruas. A rua de cima era uma subida, tinha uma ribanceira e alguns moleques passavam atirando pedras. Da minha casa dava para ver uma casa da rua de cima que tinha um coqueiro plantado na varanda. Era um coqueiro enorme com folhas imponentes que eram tão fortes que não se abalar nem mesmo com o vento que de vez em quando vinha brincar com seu galhos.
No final da tarde eu gostava de sentar no passeio e olhar para o coqueiro como se telepaticamente conversássemos.
Eu sonhava tanta coisa, o melhor da minha vida era os momentos eu que eu sonhava e tinha dentro de mim uma esperança infantil que todas aquelas dificuldades de sobrevivência um dia passaria e que eu poderia acessar coisas que naquele momento pareciam tão distantes, tão impossível.
Minha avó gritava da casa dela que era do lado da minha:
-Manuela entra pra casa! Este sereno vai te gripar.
Eu obedecia resignada, recolhia o tamborete e ia por água no fogo para fazer o café a cozinha era em um pedacinho do quarto e a sombra do coqueiro se projetava magicamente na parede.
Eu era feita de sonhos naquela época, acreditava que aquela pobreza toda um dia ia passar mas falando sério, mesmo suportando todas as dificuldades que as privações por falta de dinheiro podem trazer, dentro de mim havia uma esperança tão forte e iluminada que eu posso dizer que eu era feliz, algo dentro de mim me fazia firme em todos os meus sonhos por mais que parecessem distantes, aquele coqueiro ali tão forte e resistente era como um amigo ou como um incentivo para que eu não me abalasse por tudo o que viesse acontecer, era como se me dissesse para não desistir...
Nunca falei sobre isso com ninguém, seria difícil achar quem pudesse compreender como este elemento simbólico serviu de motivação, eu não tinha nada na vida a não ser minhas ilusões, meus sonhos, minha fé e a representação das mensagens de Deus para que eu continuasse acreditando que tudo nesta vida passa e que devemos apesar de tudo embalar os nossos sonhos com carinho e persistência.
25 de março de 2023
Capítulo III
UM MUNDO COLORIDO
Sempre tive cores dentro de mim, embora muitas vezes eu prefira estar de preto e branco, as cores sempre coloriram a minha alma, eu achava tudo colorido fascinante e vivo e alegre...
Quando eu era criança, na minha casa não tinha TV a cores, tínhamos uma Philips preta e Branco mas para mim isto não era um problema porque eu imaginava qual era a cor da roupa dos atores e isso acontecia de uma maneira tão natural que de fato eu não enxergava mas nada em preto e branco, as cores estavam em mim e se expandiam.
A minha avó lavava roupa de ganho e ela sempre tomava conta de mim, ela era uma mulher simples, sofrida pela vida mas mesmo sem saber ler e escrever ela me ensinou muitas coisas importantes sobre a vida, eu estava sempre com ela, quando ela barrelava a roupa na bacia apoiada em cima de um tamborete e eu observava a estampa dos lençóis imaginando mil histórias, quando ela engomava as roupas com um ferro esquisito e subia aquele aroma de limpeza, de roupa lavada eu ficava ajoelhada em um banco enquanto ela passava a roupa em cima da mesa com vários lençóis dobrados. Vida dura de batalha mas para mim era uma vida feliz eu não conhecia luxo, eu não tinha coisas caras mas eu via magia em tudo o que acontecia. De noite eu ia com ela entregar as roupas quando era no bairro que morávamos ela entregava de noite mesmo, tinha uma padaria que Moía café e agente sentia o cheiro de longe, nunca esqueci aquele cheiro de pão fresco e café moído para mim era o perfume da noite e íamos pela rua poeirenta porque ainda não tinha asfalto com uma mão ela equilibrava a trouxa de roupas na cabeça e a outra ela segurava minha mão.
Na casa dos donos da roupa que minha avó lavou a TV estava ligada passando a novela A Gata Comeu. Os personagens eram coloridos porque de fato, a TV era em cores, mas eu ainda achava que da nossa pequenina TV em preto e branco tudo era mais bonito porque eu imaginava, eu sonhava com as cores....
Eu sinto muitas saudades da menina que eu fui, daqueles momentos de simplicidade quando depois de entregar a roupa minha avó comprava 100 Gr de café e alguns pães, naquele tempo, pobre podia comprar um pedacinho de manteiga e mesmo pouco todo mundo se satisfazia, hoje em dia eu não sei se porque quando se torna adulto agente perde as ilusões mas eu não consigo mais ter aquela paz alegre que nascia das coisas tão simples e tão caras.
02 de maio de 2023
Capitulo IV
PRINCIPE... SAPO
Ah muito tempo atrás eu levei um tombo feio e deste tombo ganhei um ferimento no joelho que virou uma cicatriz, Todas as vezes que eu olhava para a marca eu me lembrava da dor, cheguei a achar que o ferimento nunca iria sarar, mas aos poucos foi criando uma casca até que não doeu mais só ficou ali, estampado em minha pele como uma tatuagem.
Assim são os amores amargos que passam por nossas vidas... um dia sara.
Quando eu tinha por volta de uns quinze anos, uma família se mudou para o meu bairro, eram três garotos e uma moça já crescida , a mãe e o pai. Eles se destacavam não apenas por serem pessoas novas que iriam morar em uma casa que foi moradia de pessoas muito queridas por muito tempo, mas se destacavam por que eram diferentes das pessoas do bairro, os meninos eram meio loiros, bem diferentes das pessoas que eram morenos, negros, mestiços.,,,
Obvio que as meninas se assanharam não exatamente por terem uma aparência diferente dos meninos do bairro mas por que eram pessoas desconhecidas que instigavam a imaginação delas, não só das meninas mas de todos. Todo mundo queria saber quem eram, o que faziam, eram novidade.
Eu não estava tão interessada com quem vinha e nem com quem ia, minha vida naquele tempo era muito difícil, apesar de ser apenas uma adolescente eu tinha muita coisa para me preocupar, meus pais estravam se separando e o impacto desta separação estava causando um grande trauma para mim, eu queria respostas para coisas que pareciam incógnitas naquele tempo, eu queria estudar, fazer faculdade, ter uma vida tranquila mas a minha realidade apresentava um quadro totalmente negativo. Eu dava aulas de reforço pela manhã e estudava de tarde, Um dia eu voltava da aula de reforço apressada para me arrumar e ir para escola quando um dos novos moradores ia na minha frente, eu nunca tinha reparado para mim eles eram todos iguais, mas na verdade não eram, um era gordo e alto, o outro era meio franzino e sardento tinha as pernas finas e o nariz vermelho e este ultimo que parecia ter sido o projeto que deu certo, ele era bem bonito mas parecia um marginal, andava gingando com a camisa pendurada no ombro não parecia ter vindo da escola mas de uma reunião de malandros.
Sempre que eu ia comprar pão via ele no meio dos Bad Boys da rua, não parecia ser um rapaz direito, os irmãos dele eram mais sérios mas este ultimo... sei que é feio julgar as pessoas mas as companhias, os modos dele mostrava que era um pivete arruaceiro.
Bonito sim mas eu não me atrevia a alimentar qualquer tipo de ilusão uma porque um cara tão bonito e chamativo não olharia para uma moça comum como eu, sem um tostão para poder andar produzida e outra porque eu era uma Nerd," certinha" como costumavam criticar, eu não poderia me dar ao luxo de me meter em confusão então fazia das minhas muitas espinhas minhas companheiras e seguia meu caminho sempre sonhando acordada com uma vida mais tranquila, com condições de ter todas as coisas que eu queria mas que não ousava pedir porque sabia que meus pais não tinham como me dar.
Hoje olhando para trás eu vejo que eu queria tão pouco, coisas tão pequenas mas que mesmo sendo pouco era inviável para minha família, os sonhos alimentavam a minha alma, eu acreditava que tudo no futuro seria diferente, era como se algo dentro de mim gritasse que as dificuldades daquele momento eram nuvens passageiras, eu não tinha como saber o que iria acontecer no futuro, mas na minha cabeça a minha consciência me alertava que não buscasse mais problemas para mim, não procurasse me envolver com pessoas que poderiam destruir as minhas chances de ter um futuro melhor, aquele momento de escolhas era crucial para o meu futuro então eu não poderia me envolver com pessoas que poderiam me arrastar para a destruição.
Sempre que eu me batia com aquele cara pelo bairro percebia que ele me seguia com o olhar, falava alto como se desejasse chamar a minha atenção, mas ao mesmo tempo em que percebia isso eu achava que ele deveria estar olhando para outra pessoa eu não me via capaz de chamar a atenção de um cara bonito, ele só poderia estar ao meu alcance em meus sonhos...
Os anos foram passando , o carinha bonitinho com jeito de marginal se chamava Pedro e ele não mudou com o tempo, continuava andando com os maus elementos do bairro e até se envolveu com uma menina que nossa, além de ser arruaceira como os caras que ele andava ela era estranha, nada bonita e nem vaidosa, parecia que sempre estava suja. Eu não me decepcionei porque descobri com os anos que eu sempre fui racional até em meus sentimentos, não tinha porque me ressentir porque nunca aconteceu nada entre eu e ele. Me sentia atraída pela estampa dele, como tudo o que é belo atrai o olhar das pessoas mas nunca apreciei o comportamento dele, eu era adolescente e sonhava com um cara bonito assim como muitas meninas da minha idade naquela época platonicamente apreciavam ídolos de roque ou do cinema.
Eu não sou rica, mas tenho uma condição muito melhor do que eu tinha quando era mocinha, hoje eu posso comprar um vestido que me agrade, posso tomar um sorvete no fim da tarde. Estudei, me formei e tenho um emprego. Tenho uma vida normal de lutas e conquistas, tive alguns relacionamentos na vida embora eu ainda não tenha encontrado o par perfeito.
E Pedro?
Depois de muito tempo eu soube que ele saiu do bairro corrido após se envolver em uma confusão, juraram acabar com a raça dele, eu nunca soube de fato os detalhes, a mãe dele frequentava a mesma igreja que minha mãe e terminaram se aproximando, foi assim que eu soube disso... Soube também que ele teve uma filha com aquela estranha que ele andava envolvido.
Um dia, a mãe dele falou com minha mãe que ele quando era adolescente era doido por mim mas eu era muito seria não dava espaço para ele se aproximar, e que se eu tivesse dado uma chance talvez ele seguisse outro rumo na vida.
Eu acho que ninguém muda ninguém, ainda bem que eu era seria demais para me deixar encantar pelo sapo fantasiado de príncipe.
05 de junho de 2023
Capitulo V
PEDRO MISSIONEIRO...
As vezes eu olho para trás e fico me perguntando onde foram parar as minhas crenças? Quando eu era adolescente tudo ao meu redor parecia caótico e isso não era apenas pelo fato de eu ser adolescente, muitos reclamam de tudo por estar na transição da infância para a idade adulta mas além de ter que lidar com isto eu também tinha que me forçar a ser madura para não surtar com todas as impossibilidades que a vida esfregava na minha cara, Sem pessimismos, acredito que eu era a aluna mais pobre daquela escola e muitas coisas ruins eu precisei suportar, fui adolescente no inicio dos anos 2000 e naquela época não era bulling rir de características físicas, ninguém era punido por debochar do coleguinha que não podia ter um tênis de marca, as pessoas era classificadas pelo o que usavam e eu agradeço ao fato de não ter dinheiro para ter um tênis de marca, claro que eu odiava que debochassem de mim mas eu também não queria construir amizades só porque eu podia comprar um tênis caro.
Sempre busquei alento nos livros, a leitura sempre me acolheu e eu nem preciso dizer que quando não tinha aula o lugar onde era certeza me encontrar era na biblioteca. Meu nome é Diva e isso era um dos maiores motivos de deboche, me chamavam de Diva mendiga, Diva genérica, Diva da pobreza isso tudo ocorria em um colégio publico onde ninguém é milionário mas os que tinham um pouquinho mais se achava no direito de ridicularizar aos outros, quando estas coisas ocorriam eu me refugiava nos livros, foi assim então que descobri Érico Verissimo e me apaixonei. Li todos os livros dele que tinha disponível na biblioteca mas o que mais gostei foi Ana Terra.
Me identifiquei totalmente com a personagem e quando ela dizia que sempre que acontecia alguma coisa importante a ela era dia que estava ventando muito, li aquele livro como se eu fosse Ana terra eu entendia sua timidez e sua opressão vivendo em um lugar recluso sem convívio com as pessoas, ao mesmo tempo que isso é ruim, eu achava bom porque tem certo tipo de pessoa que não vale a pena conviver, tem gente que infelizmente não tem nada de bom para partilhar então a solidão termina virando solitude pois conseguimos ouvir a voz da nossa consciência nos ensinando coisas preciosas sobre a vida.
Não tínhamos o segundo horário de quarta-feira, o dia estava frio, chuvoso, cinzento...
Eu estava meio tremula pois havia pegado chuva no caminho para o colégio, meu casaco e meus pés estavam molhados sai da sala e fiquei no corredor com algumas colegas, o vento fazia com que as venezianas da janela rangessem e eu me lembrei de Ana Terra dizendo que coisas importantes aconteciam na vida dela em dias de ventania, mas o que poderia de acontecer a uma adolescente pobre de marré deci sem muitos atrativos em uma escola publica?
A resposta veio meio que imediata.
Meus olhos se encontraram com os dele. Eram olhos castanhos escuros, assim como seu cabelo grosso, preto como cabelo de índio, como o cabelo de Pedro Missioneiro e ela estava vestindo um suéter colorido com estampas indígenas que faziam com que sua pele morena ficasse ainda mais bonita.
Uma pausa para explicar:
Ana Terra é uma personagem da Trilogia de Érico Verissimo, O Tempo e o Vento. É uma moça solitária que vive com os pais e dois irmãos e uma estância afastada de tudo e de todos, Ana trabalha na lavoura e ajuda a mãe nos cuidados domésticos e tenta se conformar com o fato de que nunca vai conseguir formar sua própria família vivendo isolada naquele lugar, porém um dia ao retornar da cidade onde o pai e irmão trocavam seus produtos por outros itens , eles trazem um índio que estava ferido quase morto. O índio era Pedro Missioneiro que é tratado pela mãe de Ana até ficar bom, Pedro então recuperado colabora com os trabalhos até que não mais resistindo a atração ele e Ana começam um romance, porém após a família da moça descobrir o pobre rapaz termina assassinado.
A forma com que o autor descrevia os personagens era tão maravilhosa que fui idealizando em minha mente e quando vi aquele rapaz parados na escada com os cabelos negros molhados e com aquele caso com estampa indígena me senti como se estivesse em um transe, me senti como se um imã me levasse até ele e quando dei por mim já estava perto dele no patamar da escada, não me lembro o que falei com ele naquele momento mas deve ter sido algo interessante porque quando dei por mim estávamos na biblioteca conversando sobre várias coisas como se tivéssemos no reencontrado. Como falei minha vida não era nada facil, não tinha muitas perspectivas boas, na verdade eu e minha família sobrevivíamos pela misericórdia divina mas mesmo não tendo nada em que me agarrar eu tinha uma esperança tão linda, algo dentro de mim me incentivava a ir para o colégio com fome, com o sapato furado, ouvir o deboche de colegas...Algo dentro de mim gritava para insistir mas a partir do momento que meus olhos pousaram nos olhos daquele moço me pareceu ter um motivo vivo para aturar a zoação diária.
E o fato de que após aquele primeiro contato, todos os dias passei a ser visitada por ele na sala, ele me levava para a biblioteca e conversávamos até o sinal tocar para a próxima aula, parece que sonhávamos juntos com o futuro eu queria ser psicóloga e falava com ele sobre este meu sonho, sobre tudo o que eu ja tinha lido a respeito e ele viajava comigo em minhas ilusões e esperanças, só que toda esta magia que rolava entre nos dois começou a incomodar aos que perdiam seu tempo para me ridicularizar, começaram a criar boatos e buchichos sobre o que um cara tão maravilhoso como ele tinha visto em uma coisa feia e mal vestida como eu?
Auto estima é algo que conquistei ao longo dos anos, quando aprendi a não dar ouvidos ao que me diziam mas naquela época eu tinha apenas dezessete anos, tinha uma vida difícil onde nem sempre tínhamos o suficiente para as três refeições quanto mais para alimentar a aparência e agradar aos outros. Eu mesma me perguntava porque ele falava comigo quando garotos que não chegavam ao pés dele em termos de aparência me ridicularizavam mesmo sem eu nunca ter me dirigido a eles, o simples fato de eu existir incomodava a estes caras.
Hoje, eu tenho a resposta ele fazia questão de estar comigo porque ele era maravilhoso. Não era apenas um cara bonito , ele era bom caráter, ele era humano, gentil, educado, inteligente, atencioso e ... eu estava apaixonada por ele, eu imaginava que nunca seria correspondida e pensava que talvez ele gostasse de conversar mas jamais andaria de mãos dadas com uma guria que tinha espinhas, não tinha condições de usar roupas descoladas e ser julgado pelos outros mas ele não era isso. Ele já era um homem quando todos os outros eram moleques que achavam que ser homem era apenas transar com o maior numero possível de meninas.
Todos os dias estávamos juntos e sempre tínhamos o que conversar mas eu disse a mim mesma que jamais diria que eu estava apaixonada, jamais sugeriria que nos envolvêssemos amorosamente porque o simples fato dele me enxergar como uma pessoa fazia com que eu me sentisse especial realizada e feliz portanto eu não tinha que sonhar com algo mais. Amar aquele rapaz era algo muito fácil não apenas porque ele era bonito de fato mas porque ele era um ser humano especial. Aprendi que a beleza é uma exigência dos que tem preguiça ou não sabe enxergar as virtudes de uma pessoa, ele era tão maravilhoso que eu nem lembrava que ele era bonito.
As pessoas especulavam a maioria dizia que não éramos namorados que isso jamais aconteceria pois eu era feia e ele bonito mas outros diziam que deveria terr. algo errado com ele que a forma como ele me olhava não era como amigos, temi que ele deixasse estes mexericos afetar nossa amizade e até acreditasse que era eu que estava espalhando estes boatos então falei claramente que estavam falando de nos.
Ele me respondeu que não dava a mínima para o que falavam e que continuaria indo me visitar e assim fez, quando ele chegava na sala as meninas se assanhavam tentando chamar a atenção dele, falavam alto, jogavam o cabelo dai ele me pegava pela mão e ia me levando até a biblioteca e lá ficávamos até a hora de ir para a outra aula Como não amar?
Ele era aquela pessoa que você olha e ver que o futuro irá lhe sorrir e que tudo de bom vai acontecer com aquela pessoa de forma linear. Tudo que é bom não é eterno...
O fim do ano chegou e dentro de mim pairava aquela pergunta e ano que vem?
O ano que vem a escola vai entrar em reforma e atuar com rodizio e o que houve? Ele foi para outra escola afim de não atrasar o conteúdo tendo em vista que ele estava no segundo ano e eu no terceiro eu deveria fazer o mesmo mas não fiz, compensei estudando nas bibliotecas públicas, nada foi fácil para mim, precisei optar entre fazer faculdade e sobreviver então precisei trabalhar duro seis anos após ter terminado o ensino médio entrei na faculdade meio sem acreditar que algum sonho em minha vida estava sendo realizado e claro, foi muita luta até conseguir meu diploma e depois desta conquista a vida virou uma pagina para mim mais colorida eu senti na pele a sensação de comprar coisas que eu queria sem ter que ficar sem o almoço.
Procurei viver minha vida da melhor forma possível, estudando, buscando e nunca mais permiti que me maltratassem apenas pelo fato de eu ser pobre. Um dia que eu não tinha muito o que fazer pesquisei por aquele meu crush no Facebook e descobri que ele era terapeuta, professor e advogado , era casado com uma mulher bonita, magra com um jeito de modelo, tinham uma filhinha e pareciam feliz, me surpreendi pelo fato de não sentir inveja deles.
Aliás eu nunca fui dada a ter inveja de ninguém sempre achei que as pessoas tem o que merecem e as vezes agente passa se arrastando pelo abismo não porque mereçamos ser punidos mas por que precisamos evoluir, entender de verdade o que que se pode valorizar na vida e infelizmente a forma mais eficaz de garantir este aprendizado é passando por certas coisas.
Amei muito aquele moço, mas foi um amor que não era para ser amor romântico daqueles que o Pedro Missioneiro viveu com a Ana Terra, era um amor que foi aprendizado sobre como eu deveria olhar para mim mesma e que eu nunca deveria permitir que me inferiorizassem seja lá porque motivo fosse por isso não senti inveja, nem ciúme quando vi que ele conseguiu realizar e construir tudo o que queria, senti na verdade gratidão por ele ter me mostrado que só conseguimos amar aos outros quando amamos a nos mesmos sem complexos, sem traumas apenas enxergando a nossa essência.
REFERÊNCIAS:
https://e7.pngegg.com/pngimages/526/443/png-clipart-frames-drawing-vignette-text-animal.png
https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQf3iQ8RouFVP9IiZRrB2N8RMMxsxXTRZZERA&usqp=CAU